
Ó Maria Parda cuytada que nam teens ja que mijar!
Sempre fui um apaixonado por Maria Parda, essa mulher de 1500, vítima da crise e da fome de então, imagem da privação e da carência. Sempre me fascinou este texto de Mestre Gil. Talvez seja aquele com que mais me identifico e que mais significado tem para mim pelo seu conteúdo temático e pela sua proximidade com as manifestações simbólicas populares e rituais.
Aliás, não é a primeira vez que "a minhoca que puseram a secar" surge no meu percurso de criador teatral. Há alguns anos, dei vida a uma outra leitura deste mesmo texto numa montagem profissional do então grupo de teatro "O Realejo" do Porto.
Maria Parda, mulher de rua, bêbada, desgraçada, provavelmente mulata, ridícula... Mas no seu corpo gasto, nas suas palavras, no cómico e burlesco dos seus actos, encontramos, no meio do desespero, a força de viver apesar do seu único destino ser a morte. Hoje, quase 500 anos depois, a força de Maria Parda mantém-se. A distância no tempo não lhe retira a enorme vitalidade nem a capacidade de diagnosticar / questionar / inquietar a nossa sociedade.
Não quisemos montar um espectáculo "vicentino". Que me desculpem os puristas. Utilizámos este texto como base de um trabalho de escola de actor, um exercício teatral em que as duas actrizes, num quase monólogo, dividem entre si a personagem, duas faces duma mesma máscara. Este espectáculo é, em si, um ritual ou a ritualização dum itinerário dessa privação e dessa carência, simbolicamente centrado na falta de vinho mas que pode ser lido como a fome de pão, ou a raiva contra a falta de solidariedade.
Numa opção clara de encenação actrizes e espectadores repartem o mesmo espaço e o mesmo ambiente, numa intimidade comprometedora. Maria Parda está assim bem perto de nós. O mau cheiro que exala está à distância de um aperto de mão.Victor Valente